sábado, 13 de outubro de 2012

Ação humana


Uma ação não é apenas um gesto ou uma série de gestos. Uma ação é um gesto ou uma série de gestos intencionais, no sentido em que esses gestos ou série de gestos são imputáveis a um agente. Uma ação não é um acontecimento como um tremor de terra ou uma folha morta. A ação, tal como o acontecimento, gera uma modificação no mundo, mas esta modificação, por muito pequena que seja, jamais será anónima ou cega. Trata-se sempre da ação de alguém. Dizer que uma ação é intencional é também sublinhar que uma ação tem sempre uma finalidade. O agente não age por agir, ele age por ou em vista de qualquer coisa, porque visa um resultado, porque o seu gesto tem um sentido, e o termo «sentido» deve ser entendido em todas as suas aceções, seja como perceção (órgãos dos sentidos), como direção (o fim visado) ou ainda como significação (aquilo que esse fim significa para o ator). Esse fim ou objetivo está incluído na nossa noção de ação.

S. Ferret, Aprender com as Coisas, Edições ASA, Porto, 2007, págs. 84-85.


Em baixo: combate entre Aquiles e Heitor (Troia)

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Os primeiros filósofos

Os mais antigos filósofos ocidentais eram gregos: filósofos que falavam dialetos da língua grega e que estavam familiarizados com os poemas gregos de Homero e de Hesíodo, tendo sido ensinados a prestar culto a deuses gregos como Zeus, Apolo e Afrodite. Estes filósofos não viviam no continente grego, mas em centros afastados de cultura grega, nas costas do Sul de Itália ou na costa ocidental do que é hoje a Turquia, e floresceram no século VI a.C. (...).

Estes primeiros filósofos foram também os primeiros cientistas, e muitos foram também líderes religiosos. A princípio, a distinção entre ciência, religião e filosofia não era tão clara como viria a tornar-se em séculos posteriores. (...)

Anthony Kenny, História Concisa da Filosofia Ocidental, Lisboa, Temas e Debates, 2003


Em baixo: uma breve biografia (em castelhano) daquele que é apontado como sendo o primeiro filósofo/cientista - Tales de Mileto

O que é a filosofia? (2)

A filosofia é uma atividade: é uma forma de pensar acerca de certas questões. A sua característica mais marcante é o uso de argumentos lógicos. A atividade dos filósofos é, tipicamente, argumentativa: ou inventam argumentos, ou criticam os argumentos de outras pessoas ou fazem as duas coisas. Os filósofos também analisam e clarificam conceitos. A palavra «filosofia» é muitas vezes usada num sentido muito mais lato do que este, para referir uma perspetiva geral da vida ou para referir algumas formas de misticismo. Não irei usar a palavra neste sentido lato: o meu objetivo é lançar alguma luz sobre algumas das áreas centrais de discussão da tradição que começou com os gregos antigos e que tem prosperado no século XX, sobretudo na Europa e na América.

Que tipo de coisas discutem os filósofos desta tradição? Muitas vezes, examinam crenças que quase toda a gente aceita acriticamente a maior parte do tempo. Ocupam-se de questões relacionadas com o que podemos chamar vagamente «o sentido da vida»: questões acerca da religião, do bem e do mal, da política, da natureza do mundo exterior, da mente, da ciência, da arte e de muitos outros assuntos. Por exemplo, muitas pessoas vivem as suas vidas sem questionarem as suas crenças fundamentais, tais como a crença de que não se deve matar. Mas por que razão não se deve matar? Que justificação existe para dizer que não se deve matar? Não se deve matar em nenhuma circunstância? E, afinal, que quer dizer a palavra «dever»? Estas são questões filosóficas.

Ao examinarmos as nossas crenças, muitas delas revelam fundamentos firmes; mas algumas não. O estudo da filosofia não só nos ajuda a pensar claramente sobre os nossos preconceitos, como ajuda a clarificar de forma precisa aquilo em que acreditamos. Ao longo desse processo desenvolve-se uma capacidade para argumentar de forma coerente sobre um vasto leque de temas – uma capacidade muito útil que pode ser aplicada em muitas áreas.

Nigel Warburton, Elementos Básicos de Filosofia, Lisboa, Gradiva, 2007.

O que é a filosofia? (1)


As nossas capacidades analíticas estão muitas vezes já altamente desenvolvidas antes de termos aprendido muita coisa acerca do mundo, e por volta dos catorze anos muitas pessoas começam a pensar por si próprias em problemas filosóficos – sobre o que realmente existe, se nós podemos saber alguma coisa, se alguma coisa é realmente correta ou errada, se a vida faz sentido, se a morte é o fim. Escreve-se acerca destes problemas desde há milhares de anos, mas a matéria-prima filosófica vem diretamente do mundo e da nossa relação com ele, e não de escritos do passado. É por isso que continuam a surgir uma e outra vez na cabeça de pessoas que não leram nada acerca deles.

(…) O núcleo da filosofia reside em certas questões que o espírito reflexivo humano acha naturalmente enigmáticas, e a melhor maneira de começar o estudo da filosofia é pensar diretamente sobre elas. Uma vez feito isso, encontramo-nos numa posição melhor para apreciar o trabalho de outras pessoas que tentaram solucionar os mesmos problemas.

A filosofia é diferente da ciência e da matemática. Ao contrário da ciência, não assenta em experimentações nem na observação, mas apenas no pensamento. E ao contrário da matemática não tem métodos formais de prova. A filosofia faz-se colocando questões, argumentando, ensaiando ideias e pensando em argumentos possíveis contra elas, e procurando saber como funcionam realmente os nossos conceitos.

A preocupação fundamental da filosofia é questionar e compreender ideias muito comuns que usamos todos os dias sem pensar nelas. Um historiador pode perguntar o que aconteceu em determinado momento do passado, mas um filósofo perguntará: “O que é o tempo?” Um matemático pode investigar as relações entre os números, mas um filósofo perguntará: “o que é um número?” Um físico perguntará o que constitui os átomos ou o que explica a gravidade, mas um filósofo irá perguntar como podemos saber que existe qualquer coisa fora das nossas mentes. Um psicólogo pode investigar como as crianças aprendem uma linguagem, mas um filósofo perguntará: “Que faz uma palavra significar qualquer coisa?” Qualquer pessoa pode perguntar se entrar num cinema sem pagar está errado, mas um filósofo perguntará: “O que torna uma ação boa ou má?”

Não poderíamos viver sem tomar como garantidas as ideias de tempo, número, conhecimento, linguagem, bem e mal, a maior parte do tempo; mas em filosofia investigamos essas mesmas coisas. O objetivo é levar o conhecimento do mundo e de nós um pouco mais longe. É óbvio que não é fácil. Quanto mais básicas são as ideias que tentamos investigar, menos instrumentos temos para nos ajudar. Não há muitas coisas que possamos assumir como verdadeiras ou tomar como garantidas. Por isso, a filosofia é uma atividade de certa forma vertiginosa, e poucos dos seus resultados ficam por desafiar por muito tempo.

(…) os filósofos discordam, e há mais do que dois lados para qualquer questão filosófica. A minha opinião pessoal é a de que a maioria destes problemas não foram resolvidos e alguns deles talvez nunca o sejam. Todavia, o objetivo aqui não consiste em dar respostas – nem mesmo as respostas que eu próprio possa pensar que estão corretas –, mas em introduzir-te de forma muito preliminar nos problemas, de maneira que tu próprio possas preocupar-te com eles. Antes de aprendermos muitas teorias filosóficas é melhor ficarmos perplexos acerca das questões filosóficas que essas teorias tentam resolver. E a melhor maneira de o fazer é olhar para algumas soluções possíveis e ver o que está errado com elas. Tentarei deixar os problemas em aberto, mas, mesmo que diga o que penso, não tens razão nenhuma para o aceitares se não o achares convincente.

Thomas Nagel, Quer Dizer Tudo Isto? – Uma Iniciação à Filosofia, Gradiva, 1997.

Critérios de avaliação - Filosofia - 10.º ano